Crise provocada pelos cortes na ciência americana abre disputa internacional por pesquisadores e acende alerta para paÃses que ainda tentam formar e reter talentos.
ciência americana entrou no radar da economia mundial por uma razão pouco confortável para os Estados Unidos: está perdendo gente. E não pouca. Segundo levantamento citado pela revista Nature e repercutido na coluna Faria Lima News, da VEJA Negócios, cerca de 25 mil cientistas e profissionais de pesquisa deixaram seus cargos desde o inÃcio do segundo mandato de Donald Trump.

Durante décadas, os Estados Unidos construÃram parte de sua superioridade tecnológica justamente pela capacidade de atrair os melhores pesquisadores do planeta. Universidades, centros de pesquisa, empresas e agências federais formaram uma engrenagem que ajudou a produzir avanços em áreas como medicina, computação, energia, engenharia e biotecnologia. Agora, essa engrenagem começa a perder peças. E talento cientÃfico não fica necessariamente desempregado por muito tempo. Europa e outros mercados já enxergam a oportunidade de receber pesquisadores altamente qualificados, muitos deles formados ou aperfeiçoados com dinheiro público americano.
É aà que a história deixa de ser exclusivamente americana. Cada pesquisador que cruza uma fronteira leva conhecimento, experiência, redes de colaboração e capacidade de formar novos pesquisadores. PaÃs que perde cérebros perde mais do que trabalhadores. Perde tempo.
A ciência tem uma caracterÃstica que a diferencia de muitos outros investimentos públicos: seus resultados podem aparecer décadas depois. Cortar hoje uma bolsa de doutorado, interromper um laboratório ou cancelar uma linha de pesquisa não significa apenas economizar dinheiro neste ano. Pode significar deixar de produzir uma tecnologia daqui a dez ou vinte anos.
É por isso que a disputa contemporânea entre Estados Unidos, China e Europa não é somente comercial ou militar. É também uma disputa por universidades, laboratórios, pesquisadores, patentes e conhecimento.
Quem conseguir concentrar os melhores cérebros terá vantagem na próxima geração tecnológica.
O episódio americano também deveria servir de alerta por aqui. O Brasil ainda convive com dificuldades históricas para formar, financiar e, principalmente, reter pesquisadores.
Para o Pará, a discussão ganha dimensão ainda maior. A Amazônia reúne alguns dos maiores desafios cientÃficos do planeta - biodiversidade, novas moléculas, doenças tropicais, energia, recursos naturais, mudanças ambientais, agricultura e tecnologias adaptadas à floresta. Mas, transformar esse patrimônio em conhecimento exige pesquisadores - e pesquisadores não vivem apenas de discurso sobre a importância da ciência; precisam de financiamento estável, laboratórios funcionando, bolsas, infraestrutura e perspectiva profissional.
A ironia é que, enquanto os Estados Unidos correm o risco de expulsar parte dos cérebros que ajudaram a construir sua liderança cientÃfica, paÃses como o Brasil continuam assistindo à saÃda de seus próprios talentos em busca de melhores condições.
A guerra pelo conhecimento já começou. E ela não será vencida necessariamente por quem tiver mais universidades, mais dinheiro ou mais laboratórios. Será vencida por quem conseguir convencer os melhores cérebros a ficar.
E, nesse campeonato, cérebro também é ativo econômico. Quem manda embora pode descobrir tarde demais que não existe orçamento capaz de comprar de volta o tempo perdido.
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A ProvÃncia do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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