Servidor sem consulta enquanto instituto compra camisas e nécessaire em Belém Velório simbólico na Câmara de Altamira; vereadores correm pela sobrevivência Prefeitura concentra os exames do SUS e pequenos laboratórios acabam sem espaço
ESTÁ CERTO ISSO?

Servidor sem consulta enquanto instituto compra camisas e nécessaire em Belém

Ato nesta segunda-feira cobra explicações sobre mais de R$ 3 milhões em contratos enquanto faltam médicos, exames e atendimento.

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  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 11/09/26 09:00
Servidor sem consulta enquanto instituto compra camisas e nécessaire em Belém
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servidor municipal de Belém que há anos espera por uma consulta ou exame talvez tenha agora um motivo adicional para se indignar: o Instituto de Assistência à Saúde dos Servidores Públicos do Município de Belém (Iasb) encontrou dinheiro para contratar eventos, comprar camisas e até nécessaires personalizadas - é isso mesmo.

 

Assistência aos servidores está no centro de uma cobrança por contratos que, somados, chegam a R$ 3,075 milhões/Fotos: Arquivo.

Enquanto usuários reclamam de dificuldades para marcar consultas, exames e procedimentos, o Instituto está no centro de uma cobrança pública por contratos que, somados, chegam a R$ 3,075 milhões.

A reação promete sair das redes sociais e ganhar a rua. Nesta segunda-feira, 14, a partir das 9h, servidores do Iasb farão um ato em frente à sede do Instituto, no bairro do Marco. Pelo que se sabe até aqui, trata-se de uma das primeiras manifestações públicas de maior dimensão para cobrar diretamente a autarquia por aquilo que deveria ser sua razão de existir: assistência à saúde dos servidores municipais. A pergunta que move a mobilização é simples: onde estão as prioridades?

Mais de R$ 3 milhões

Os contratos já publicados no Diário Oficial de Belém chamam atenção pelos valores e pela natureza das despesas. Um deles, de R$ 1,734 milhão, prevê serviços de organização e realização de eventos sob demanda. Outro chega a R$ 1,340 milhão e envolve serviços contratados por meio de uma ata de registro de preços à qual o Iasb aderiu.

No meio dessa conta aparecem itens que parecem ter pouco a ver com consultas, exames, cirurgias ou atendimento médico: R$ 156,8 mil para camisas femininas e masculinas e R$ 66 mil para nécessaires personalizadas. A pergunta é inevitável: para uma autarquia cuja missão é cuidar da saúde de servidores, por que eventos, camisas e nécessaires aparecem com tamanha importância no orçamento?

Não se trata de dizer que todo gasto com comunicação, eventos ou material institucional seja ilegal ou necessariamente irregular. A questão é outra - e muito mais elementar: qual é a justificativa para essas despesas diante da situação relatada por quem depende do serviço?

Servidor paga a conta

A indignação ganha outra dimensão porque, segundo os servidores, aproximadamente 80% da assistência do IASB seria financiada diretamente pelos próprios trabalhadores, por meio dos descontos em folha. Ou seja: não estamos falando apenas de um serviço público qualquer.

Há servidor que desconta todos os meses do contracheque para ter direito à assistência e, ainda assim, relata dificuldade para conseguir atendimento. Nas redes sociais, uma servidora afirma estar esperando desde 2022 por um procedimento cirúrgico para tratar otite média. Segundo seu relato, não haveria cirurgião disponível no IASB nem convênio com outro hospital capaz de realizar a cirurgia.

Outro relato aponta que, em Mosqueiro, não haveria ginecologista no IASB há mais de dez anos, obrigando moradores a procurar atendimento em Belém. São relatos que precisam ser apurados e respondidos pelo Instituto. Mas não deixam de ser reveladores da percepção de quem está na ponta. Enquanto isso, há dinheiro previsto para eventos, para camisas, nécessaires e “carona” milionária.

O contrato de R$ 1,734 milhão é o de número 002/2026-IASB, vinculado ao Processo Administrativo nº 6902/2025. O instrumento decorre de adesão a uma ata de registro de preços originada de pregão eletrônico realizado pela Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará. A empresa contratada para os serviços é a Viajagov Agência de Viagem e Eventos Ltda., dentro da estrutura da ata cuja empresa vencedora aparece com o nome fantasia Promo Go!

O segundo contrato também não nasceu de uma contratação exclusiva do Iasb. A autarquia aderiu a uma ata de registro de preços resultante de pregão realizado pela Prefeitura de Marituba. A empresa detentora do registro é a Costa Impressões Ltda., e o valor reservado ao Iasb chega a R$ 1,340 milhão. É o conhecido mecanismo da “carona” em atas de registro de preços. Legalmente possível, desde que observadas as regras aplicáveis, mas politicamente desconfortável quando o órgão que adere à ata é justamente uma instituição encarregada de prestar assistência à saúde e enfrenta reclamações de usuários sobre a falta do básico.

“Nécessaires” para quê?

É uma pergunta quase infantil, mas talvez por isso mesmo seja tão difícil de responder. Para que uma instituição de assistência à saúde precisa de R$ 66 mil em nécessaires personalizadas? Para quem serão distribuídas? Quantas serão compradas? Qual o preço unitário? E as camisas, quem receberá? Quanto dos R$ 1,734 milhão destinados a eventos será efetivamente utilizado? Quantos eventos estão previstos?

Quais serão seus objetivos? Quem vai fiscalizar a execução?

São perguntas que o Iasb pode responder com documentos, números e transparência. E deveria fazê-lo rapidamente, porque a discussão já deixou de ser apenas contábil. Virou uma discussão sobre prioridade.

 Suspeita chega à Câmara

Os questionamentos dos servidores chegaram à Câmara Municipal de Belém. A vereadora Vivi Reis, do Psol, levou o assunto ao plenário no último dia 8 e informou ter encaminhado requerimento ao Iasb pedindo explicações sobre a utilização de recursos públicos na compra de camisas e nécessaires personalizadas. Segundo a vereadora, a cobrança ocorre diante das reclamações de servidores sobre a precariedade do atendimento, apesar das contribuições mensais.

Os próprios denunciantes levantam ainda a suspeita de que algumas contratações possam ter finalidade política, especialmente por ocorrerem em ano eleitoral. Essa é uma suspeita que cabe aos órgãos de controle investigar, se houver elementos para tanto. Não cabe à denúncia substituir a investigação.

Mas uma coisa não depende de investigação eleitoral para ser respondida. Um instituto de saúde precisa gastar milhões com eventos enquanto seus usuários reclamam que não conseguem ser atendidos?

Batom pode esperar

A ironia já corre nas redes sociais. Um comentário diz que o servidor talvez não consiga consulta, mas, se tiver uma dor de cabeça, pelo menos poderá ter nécessaire para guardar batom, pente e cartão do Iasb.

Papo Reto

·Uma nota do Repórter 70, de O Liberal, causou espanto nos meios empresariais ao registrar uma incursão do senador Beto Faro (foto), do PT, na agenda de comércio exterior do Pará.

·Segundo a nota, levantamento do gabinete traz “boas notícias” sobre as exportações. A indústria até aceita ajuda política na disputa por mercados, mas não costuma conviver com aparições tão repentinas. Só falta nevar em Belém.

·O ministro Flávio Dino, do STF, deu 30 dias para o governo do Pará informar o que está fazendo para corrigir falhas de transparência e rastreabilidade das emendas parlamentares. 

·A cobrança integra a ADPF 854 e põe o Estado diante de uma pergunta simples: afinal, por onde anda o dinheiro das emendas e quem consegue acompanhar seu caminho?

·Lula demorou a descobrir as virtudes da transparência na crise do STF. Só depois de o desgaste político bater à porta resolveu pedir quebra “total” de sigilo. Transparência tardia costuma ter menos cheiro de princípio e mais de cálculo eleitoral.

·No caso Master, Lula agora quer tudo às claras. Já no escândalo do INSS, adversários cobram a mesma disposição diante das suspeitas e personagens que orbitam o caso. Transparência seletiva tem outro nome: conveniência.

·Enquanto a crise no Supremo fervia, Lula economizou palavras, mas o custo do silêncio começou a aparecer nas contas políticas e veio a defesa da abertura dos dados. Em Brasília, até a transparência parece precisar antes consultar as pesquisas.

·Anotem e acompanhem o noticiário: enquanto Brasília vende prosperidade no discurso, fábricas fecham portas e empregos desaparecem no mundo real.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.