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SAÚDE PÚBLICA

Sem saída, Belém acumula crises e a população paga a conta; até quando?

Retirada de equipamentos no Tapanã, divergências sobre pagamentos em hospital e a lotação do PSM da 14 revelam a pressão contínua sobre a rede municipal.

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  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 17/10/26 09:00

Reorganização na área de saúde só se justifica quando melhora o serviço que chega ao cidadão, o que não é o caso em Belém/Fotos: Divulgação.


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saúde continua entre os principais desafios da gestão de Igor Normando, à frente da Prefeitura de Belém desde janeiro de 2025. A reorganização dos serviços, a mudança no modelo de contratação de laboratórios e a pressão sobre hospitais e prontos-socorros colocam a Secretaria de Saúde (Sesma) diante de uma questão central: como garantir atendimento à população enquanto a rede passa por mudanças?

Um vídeo que circula nas redes sociais mostra a retirada de equipamentos do laboratório de análises clínicas da Unidade Municipal de Saúde (UMS) do Tapanã. Segundo a denúncia, os equipamentos pertenciam ao laboratório da empresa Ruth Brazão, que prestava serviços na unidade, e teriam sido recolhidos em razão de pagamentos supostamente pendentes por parte da prefeitura.

O episódio levantou dúvidas sobre a continuidade dos exames laboratoriais e as alternativas disponíveis para os usuários da unidade. Até que a Secretaria esclareça as circunstâncias da retirada e informe como o atendimento será mantido, permanece a preocupação de quem depende do serviço público para realizar exames básicos.

Sob nova direção

A retirada dos equipamentos ocorre em meio à reorganização da rede de laboratórios contratados pela Sesma. A Secretaria vem encerrando gradualmente contratos com prestadores que atuam em unidades da periferia e abriu um processo de credenciamento para contratar empresas segundo um novo modelo de atendimento.

Em maio de 2026, a escolhida foi a Diagnogest Diagnóstico, que opera sob o nome de DGS Laboratórios. A proposta é substituir procedimentos baseados em relatórios e lançamentos manuais por uma estrutura com gestão especializada, padronização de protocolos e integração tecnológica dos sistemas.

A mudança, segundo a descrição do novo modelo, pretende uniformizar procedimentos e melhorar o controle dos serviços. Mas a concentração dos atendimentos em uma única empresa também provocou críticas entre proprietários de pequenos laboratórios, que relatam perda de contratos, demissões e fechamento de unidades.

O debate vai além da disputa comercial entre prestadores. É necessário saber quantos pontos de coleta foram desativados, como os pacientes serão atendidos nas áreas afetadas e se a nova estrutura tem capacidade para absorver a demanda sem aumentar deslocamentos ou filas. Modernizar sistemas pode ser necessário. O que precisa ficar demonstrado é se a mudança também melhora, na prática, o acesso da população aos exames.

 Contas em disputa

No Hospital de Crianças Pio XII, a discussão envolve a continuidade do atendimento pediátrico e a divergência entre os valores reivindicados pela unidade e os reconhecidos pela prefeitura. 

Depois de cobranças da imprensa, a Sesma divulgou nota garantindo o funcionamento do hospital como porta aberta de urgência pediátrica, com custeio da produção pelo município e incentivo financeiro específico para esse atendimento. Segundo a Secretaria, os pagamentos processados entre janeiro de 2025 e 8 de outubro de 2026 somaram R$ 8,03 milhões. O montante inclui o incentivo mensal de R$ 193,9 mil pelo funcionamento como porta aberta na Rede de Urgência e os pagamentos pela produção ambulatorial e pelas internações realizadas como prestador do Sistema Único de Saúde.

A Sesma afirma que os pagamentos até maio de 2026 estão quitados. Os valores referentes a junho e julho, que totalizam R$ 308,9 mil, estariam em tramitação. Já os R$ 1,8 milhão mencionados em carta aberta pelo hospital, segundo a Secretaria, não aparecem nos registros analisados pela pasta nem na produção processada pelos sistemas do Ministério da Saúde e do Sistema de Informações Hospitalares.

A divergência exige esclarecimento documental. É preciso identificar a origem do valor reivindicado pelo hospital, quais serviços e períodos estão incluídos na cobrança e por que os montantes apresentados pelas partes não coincidem. Enquanto isso, a garantia de continuidade do atendimento pediátrico precisa ser acompanhada das condições concretas para mantê-lo.

Leitos e limitações

A nota da Sesma também questiona a capacidade atual do Pio XII para receber pacientes de média e alta complexidade. De acordo com a Secretaria, o hospital atende principalmente casos de baixa complexidade por demanda espontânea e não dispõe, no momento, de estrutura para absorver rotineiramente pacientes regulados de maior complexidade da rede municipal. Quando há indicação médica de internação na própria unidade, o hospital realiza o cadastro e solicita autorização da regulação.

O Pio XII possui 70 leitos de enfermaria habilitados. Em supervisão realizada em 12 de agosto, parte deles estaria em reforma ou temporariamente bloqueada para manutenção, segundo a Sesma. A Secretaria informou ainda que mantém visitas técnicas e uma auditoria em andamento para avaliar as condições assistenciais, estruturais e operacionais do hospital.

A situação torna indispensável esclarecer quantos leitos estão efetivamente disponíveis, quais serviços permanecem em funcionamento e quais providências serão adotadas para assegurar a assistência pediátrica.

Pronto socorro lotado

No PSM da 14 de Março, a pressão aparece na ocupação dos leitos e na espera por internações e transferências. Segundo a Sesma, os 243 leitos cadastrados estavam ocupados. Apesar do quadro, a unidade contabilizou, do início de 2025 a setembro de 2026, mais de 200 mil atendimentos ambulatoriais e 15 mil internações hospitalares.

A prefeitura argumenta que a demanda ultrapassa os limites de Belém. Até 15 de outubro de 2026, foram registrados 95.876 atendimentos ambulatoriais: 83.466 destinados a moradores da capital e 12.410 a pacientes de outros municípios paraenses e de outros estados. Isso significa que aproximadamente 13% dos atendimentos considerados nesse levantamento foram destinados a pessoas de fora de Belém. Ananindeua respondeu por quase 5% do total, segundo os dados divulgados pela Secretaria.

A Sesma também relaciona parte da pressão assistencial ao aumento da circulação de pessoas durante o Círio de Nazaré, quando a capital recebe visitantes de diferentes regiões. A demanda regional é um fator relevante, mas não elimina a necessidade de avaliar a capacidade da rede municipal, a disponibilidade de leitos e o tempo de espera dos pacientes. Para dimensionar o problema, também é importante distinguir os atendimentos ambulatoriais das internações e das transferências hospitalares.

Na quarta-feira, 14 de outubro, a prefeitura informou que dez leitos adicionais haviam sido liberados para o PSM da 14 de Março e que outros dez pacientes estavam em triagem para transferência. A gestão afirma que vem ampliando as transferências e contratando leitos extras.

Conta precisa fechar

Os três casos revelam problemas diferentes, mas ligados à mesma obrigação do poder público: assegurar que a reorganização administrativa não comprometa o atendimento. No Tapanã, é preciso esclarecer a retirada dos equipamentos e a continuidade dos exames. No Pio XII, a divergência financeira deve ser acompanhada de garantias sobre o funcionamento do serviço pediátrico. No PSM da 14 de Março, a ocupação integral dos leitos exige respostas sobre a ampliação da capacidade e o fluxo de pacientes.

A prefeitura apresenta números, justifica a pressão sobre a rede e anuncia providências. O passo seguinte é demonstrar os resultados: exames disponíveis, leitos efetivamente operacionais, pagamentos esclarecidos e pacientes atendidos sem interrupções evitáveis.

Papo Reto

•Sem consenso sobre a redução da maioridade penal, Davi Alcolumbre adiou a votação da PEC da Segurança Pública no Senado. A divergência impediu o avanço de uma das principais propostas da área. 

•Camilo Santana apresentou emenda à PEC da Segurança Pública para reduzir a maioridade penal a 16 anos em casos de crimes hediondos. A proposta ampliou as divergências em torno do texto. 

•A oposição propõe reduzir a maioridade penal para 16 anos como regra e 14 anos em casos de crimes graves. A mudança é defendida por Rogério Marinho e Flávio Bolsonaro. 

•Lula afirmou ser favorável à redução da maioridade penal de 18 para 16 anos em casos de crimes hediondos. Em entrevista à TV Globo, o presidente defendeu, porém, que a mudança seja discutida separadamente da PEC em análise no Congresso. 

•A Justiça Eleitoral mandou a PF investigar Ana Elisa após ação de Flávio sobre publicações relacionadas a Nossa Senhora Aparecida. A deputada eleita reagiu: "por que um candidato à Presidência tem tanto medo do que eu tenho a dizer?". 

•Fábio Porchat defendeu que os eleitores considerem a composição do Congresso na escolha presidencial. Em vídeo, o humorista avaliou como "muito perigoso" dar "carta branca" ao Executivo diante do fortalecimento da direita no Legislativo. 

•O PSD recorreu ao STF para tentar restabelecer o segundo turno entre Eduardo Paes e Douglas Ruas no Rio. O partido quer nova votação antes da diplomação

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.