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Análise

Quem há de controlar a conta do assistencialismo de Lula em 2027?

Reajuste do Bolsa Família e outras medidas ampliam a pressão sobre as contas públicas que serão herdadas pelo próximo governo

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  • Da Redação | Com O Antagonista
  • 19/09/26 19:00
Quem há de controlar a conta do assistencialismo de Lula em 2027?

São Paulo, SP - A ampliação de benefícios sociais promovida pelo governo Lula (PT) em 2026 poderá criar uma pressão adicional sobre as contas públicas que será herdada pelo próximo governo. O principal exemplo é o Bolsa Família, cujo valor mínimo passará de 600 para 691 reais a partir de outubro, em uma recomposição de 15,04% pela inflação acumulada desde março de 2023.


A avaliação é de Alessandro Callil de Castro, economista, mestre em Direito Administrativo e ex-auditor de Tribunal de Contas. Em análise enviada para O Antagonista, ele chama atenção para o impacto de medidas adotadas pelo governo neste ano sobre o orçamento de 2027 e afirma que a questão central não é apenas quanto o Estado gastará, mas como essas despesas serão financiadas nos próximos anos.


Segundo estimativa apresentada pelo economista, o reajuste do Bolsa Família representará um custo adicional de 22,7 bilhões de reais em 2027. O valor supera o superávit primário de 18,6 bilhões de reais projetado pelo governo no Projeto de Lei Orçamentária para o próximo ano.


O cenário projetado para 2027 acrescenta pressão ao debate. Enquanto o governo estima um superávit primário de 18,6 bilhões de reais, a Instituição Fiscal Independente (IFI) projeta déficit de 86,1 bilhões de reais. A instituição calcula ainda que poderá ser necessário contingenciar pelo menos 35,7 bilhões de reais em despesas no próximo ano.


A diferença entre as duas projeções chega a 104,7 bilhões de reais. Para Castro, a distância entre os números ajuda a dimensionar o desafio que poderá ser enfrentado pelo próximo governo.


Menos espaço para investimentos


Na avaliação do economista, o crescimento das despesas obrigatórias tende a reduzir o espaço disponível para gastos que podem ser efetivamente cortados pelo governo, como investimentos, obras e infraestrutura.


“Porque quando despesas obrigatórias crescem e a arrecadação não acompanha, alguém precisa ceder. E despesas obrigatórias, por definição, são difíceis de reduzir”, afirma.


O PLOA de 2027 prevê 2,576 trilhões de reais em despesas primárias e crescimento econômico de 2,5%. A IFI, por sua vez, trabalha com uma estimativa de crescimento de 1,8% e considera relativamente otimistas algumas projeções de receitas e despesas apresentadas pelo Executivo.


Para Castro, uma eventual frustração de receitas em um cenário de despesas crescentes pode ampliar a pressão sobre a parcela do orçamento com maior margem de ajuste.


“É assim que uma política voltada a aumentar renda no presente pode, se não houver fonte permanente de financiamento, diminuir a capacidade estatal de investir no futuro”, diz.


Benefício maior, compromisso permanente


O reajuste do Bolsa Família foi anunciado pelo governo como uma recomposição inflacionária. O Ministério do Desenvolvimento Social afirma que a atualização preserva o poder de compra das famílias.


A discussão fiscal, porém, vai além do aumento concedido em 2026. Como os novos valores passam a integrar a estrutura do programa, o impacto da medida se estende para os exercícios seguintes.


É nesse ponto que Castro vê um possível desafio para o governo que assumir em 2027.

“Política social sustentável exige fonte de financiamento sustentável”, afirma o economista.


A mesma preocupação, segundo ele, deve ser aplicada a outras medidas adotadas pelo governo federal neste ano, como redução de tributos sobre combustíveis, subvenções e linhas de crédito subsidiadas.


Essas iniciativas possuem mecanismos fiscais diferentes. Algumas representam renúncia de receita; outras envolvem subsídios, garantias ou riscos assumidos pelo poder público. Para Castro, o impacto não pode ser medido apenas pelo valor anunciado.

“Não existe almoço grátis no orçamento público”, afirma.


Dívida e juros


Outro ponto destacado pelo economista é o efeito de um eventual desequilíbrio fiscal sobre a dívida pública e os juros.


A lógica apontada por Castro é que um aumento da percepção de risco fiscal pode elevar o custo de financiamento do governo. Juros maiores, por sua vez, aumentam a despesa financeira e podem afetar o custo do crédito para empresas e consumidores.


“Forma-se um círculo perigoso: dívida maior exige mais juros; juros maiores pioram o custo da dívida; e o custo crescente da dívida disputa recursos com saúde, educação, segurança e investimento”, afirma.


Para Castro, o debate sobre o legado econômico de 2026 não deveria se limitar ao valor anunciado para cada programa, mas considerar a capacidade de manter essas políticas nos anos seguintes.


“Todo gasto público possui custo de oportunidade. Cada real destinado a uma finalidade deixa de financiar outra”, afirma.


O economista defende que quatro perguntas deveriam acompanhar a criação de qualquer nova política pública: quanto custa, de onde virá o dinheiro, qual resultado produzirá e se poderá ser sustentada daqui a cinco anos.


“Benefícios podem ser anunciados em minutos. Despesas podem ser aprovadas em semanas. Mas a dívida permanece durante anos. O calendário político termina. O calendário fiscal, não”, conclui.


Foto: Ricardo Stuckert/PR

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.