Disputa entre Lula e Bolsonaro estreita caminho que levaria ex-prefeito de Ananindeua ao centro do eleitorado paraense.
s pesquisas de intenção de voto realizadas ao longo dos últimos meses no Estado constroem um retrato claro do que está em jogo - e esse retrato tem uma geometria incômoda para quem quer crescer além do patamar onde já está.

Lidos em conjunto, os dados revelam um candidato que construiu uma base sólida, reconhecida como líder ou co-líder na maioria dos levantamentos, mas cujo crescimento apresenta resistência significativa a partir de determinado ponto. Esse ponto, nas pesquisas que o colocam mais alto, gravita em torno de 30% a 32%. Não é casual que esse número coincida, com razoável precisão, com o percentual do eleitorado paraense que se identifica com o bolsonarismo como campo político.
O próprio levantamento da Quaest para o cenário presidencial oferece a chave interpretativa: no Pará, Flávio Bolsonaro, candidato bolsonarista à Presidência, aparece com 32% das intenções de voto, numa disputa onde Lula registra 35%. São, portanto, dois campos de tamanho semelhante - nenhum deles majoritário - competindo pelo poder num Estado em que a faixa de eleitores não alinhados a nenhum dos dois polos pode perfeitamente definir o resultado.
A pesquisa da Quaest para o governo do Pará produziu um dado que merece leitura cuidadosa. Quando perguntados sobre a preferência majoritária do eleitorado em relação à polarização nacional, os resultados apontaram para um perfil desvinculado tanto do lulismo quanto do bolsonarismo. Oito em cada dez eleitores não souberam apontar quem é o candidato de Lula no Estado - apenas 17% citaram Hana. No campo bolsonarista, 87% desconheciam o nome apoiado pelo ex-presidente. Daniel sequer foi identificado pela maioria como o candidato do campo conservador.
Esse desconhecimento não é ignorância política. É um sinal de que o eleitorado paraense, na sua parcela mais ampla e disputável, não está processando a eleição estadual pelo prisma da guerra nacional PT versus PL. Está avaliando candidaturas à gestão do Estado, à continuidade ou ruptura com o projeto de Helder Barbalho, à credibilidade pessoal dos concorrentes - não ao alinhamento com Jair Bolsonaro ou Lula.
É exatamente o eleitor - desalinhado, avesso à polarização, que tende a acompanhar candidatos com perfil de gestão e proximidade com o poder local - que Hana Ghassan disputa com mais eficiência estrutural. E é também esse eleitor que Daniel precisaria conquistar para superar a barreira dos 30% e construir uma vitória.
Para compreender o peso do cenário, é preciso ter em conta uma variável que transcende os números imediatos das pesquisas para governador: Helder Barbalho. O ex-governador que deixou o Palácio dos Despachos para concorrer ao Senado carrega consigo, neste momento eleitoral, uma aprovação de 63% registrada pela Quaest em abril de 2026 - número que o Paraná Pesquisas havia captado em 61,4% em março. O Real Time Big Data, ainda em fevereiro, havia registrado aprovação de 80% entre os eleitores paraenses. A variação entre institutos é esperada; o que não varia é a direção: Helder tem aprovação majoritária e sólida.
Mais do que isso, 56% dos eleitores acreditam que ele merece eleger um sucessor - dado da própria Quaest. E Helder lidera com folga a corrida ao Senado, com entre 40% e 50,1% das intenções de voto nos diferentes levantamentos, uma vantagem de mais de 20 pontos sobre o segundo colocado. Essa densidade eleitoral - aprovação alta, capacidade de transferência de voto, estrutura de máquina com 13 deputados estaduais, centenas de vereadores e prefeituras estratégicas espalhadas pelo estado - é o ambiente em que Hana cresce.
É um ambiente profundamente adverso para quem precisa de crescimento fora da base já fidelizada. A máquina de Helder não apenas sustenta Hana - ela estrutura o território, financia a presença capilar, mobiliza prefeitos e vereadores, e constrói a narrativa de continuidade que protege a candidatura governista mesmo quando os números oscilam.
Por meses, a estratégia de Daniel foi a ambiguidade. O ex-prefeito de Ananindeua, que passou pelo PSDB, pelo MDB e pelo PSB antes de chegar ao Podemos em 2026, construiu sua imagem como alguém que representa a alternativa ao grupo de Helder sem se definir inteiramente como bolsonarista. Helder e sua máquina de propaganda se esforçaram sempre em empurrar Daniel para o bolsonarismo, mas essa identidade não está construída. A própria imprensa paraense já o descreveu como o "candidato camaleão" - aquele que tenta captar votos de campos distintos sem jamais se comprometer plenamente com nenhum deles.
Essa ambiguidade tinha uma lógica eleitoral: ao não se identificar abertamente com o bolsonarismo, Daniel poderia eventualmente atrair eleitores de centro, da esquerda e de direita moderada que desejam uma alternativa ao grupo dominante sem se sentir obrigados a abraçar o campo de Jair Bolsonaro. O dado que indica 87% de desconhecimento sobre seu alinhamento bolsonarista, paradoxalmente, era um ativo - deixava espaço para que cada eleitor o interpretasse a partir de suas próprias lentes.
O problema começa quando o candidato sobe ao palanque de Flávio Bolsonaro. A visita do senador ao Pará revelou, nos bastidores, a tensão inerente a essa posição. Daniel compareceu ao evento em Belém com discrição calculada, evitou protagonismo, publicou apenas uma nota protocolar. Seus aliados leram o comportamento como estratégia de "aliança silenciosa" - aceitando o apoio sem a publicidade completa. Mas quanto mais o palanque nacional bolsonarista se consolida, mais difícil se torna manter essa posição ambígua. As câmeras registram a presença. As redes sociais distribuem as imagens. O eleitor desalinhado, que não queria votar "num candidato do Bolsonaro", vai construindo gradualmente a percepção de que é exatamente isso que está diante dele.
Há uma metáfora anglófona, o rabbit hole - o buraco do coelho -, que descreve a experiência de entrar num caminho que parece apenas uma investigação legítima, mas que vai puxando o sujeito cada vez mais fundo, em espiral, até que ele perde a noção do panorama geral. A imagem vem de “Alice no País das Maravilhas”: você desce um pequeno degrau, depois outro, depois mais um, e quando percebe está tão fundo que não consegue mais ver a saída.
É exatamente esse o risco que a estratégia de alinhamento ao campo bolsonarista nacional representa para Daniel Santos na disputa pelo governo do Pará. O primeiro passo - participar de um evento com Flávio Bolsonaro - parece razoável: afinal, o campo conservador precisa de palanque estadual. O segundo passo - deixar o PL indicar o vice numa chapa conjunta - também tem uma lógica de soma de forças.
O terceiro - aparecer em propagandas com a narrativa nacional de "combate ao establishment petista-barbalhista" - parece natural dentro da gramática do campo. Mas cada passo aprofunda o buraco. Cada imagem de palanque consolida uma identidade que o eleitor do centro paraense - aquele 40% a 50% que não se identifica com nenhum dos dois polos nacionais - vai processando como sinal de que Daniel é, afinal, o candidato do bolsonarismo. E quando esse eleitor chega a essa conclusão, ele não decide por Daniel. Ele vai para Hana, ou fica em casa.
As pesquisas já captam esse movimento nas suas bordas. A Doxa de maio de 2026 apontou uma virada de Hana sobre Daniel na disputa pelo governo - um movimento que os institutos atribuem, entre outros fatores, ao crescimento da identificação de Hana com a continuidade de um governo aprovado e ao gradual selamento da identidade conservadora de Daniel.
Para ganhar a eleição, um candidato a governador precisa construir, em primeiro turno, uma maioria absoluta dos votos válidos - ou chegar em primeiro lugar com uma vantagem suficiente para vencer no segundo. Nenhum dos dois caminhos está aberto para quem permanece com 30% do eleitorado.
O bolsonarismo, como mostram os levantamentos, mobiliza aproximadamente um terço do eleitorado paraense - número relevante, mas insuficiente para a vitória numa disputa com múltiplos candidatos competitivos. Para crescer além desse terço, Daniel precisaria avançar sobre eleitores que, por definição, não são bolsonaristas - eleitores de centro, independentes, moderados que não se identificam com o campo de Flávio Bolsonaro, mas também não são entusiastas do grupo Helder-Hana-Lula.
É exatamente esse eleitor que a polarização nacional expulsa. Quando a disputa estadual passa a ser interpretada como uma extensão da guerra Lula versus Bolsonaro, o eleitor paraense avesso a esse enquadramento tende a ler Hana como o "menos pior" - afinal, ela está do lado de um governo com 63% de aprovação que divide o País ao meio.
A lógica do rabbit hole é essa: cada passo em direção ao palanque bolsonarista parece reforçar a candidatura no curto prazo - entusiasmo da base, cobertura, mobilização -, mas aprofunda o buraco que Daniel precisaria de saltar para vencer. Ao final do percurso, ele pode chegar às urnas com uma base fiel de 30%, uma identidade consolidada como candidato da direita conservadora, e um eleitorado de centro que migrou definitivamente para Hana. Uma campanha que desceu ao buraco sem perceber quando perdeu a luz lá fora.
As pesquisas já dizem o que precisa ser dito. A questão é se a campanha de Daniel está ouvindo - ou se está fascinada demais com o movimento das suas próprias engrenagens para perceber onde o caminho que tomou vai dar.

·Uma proposta de R$ 2,8 milhões por ano para serviços de limpeza, manutenção, portaria e apoio administrativo na Cohab começou a circular nos bastidores.
·O documento, datado de 10 deste mês, gestão Arthur Menezes (foto), que sucede Manoel Pioneiro, prevê 38 postos de trabalho e tem como proponente a Associação Polo Produtivo do Pará/Fábrica Esperança. Até aí, nada de extraordinário.
·O problema é que, quando se tenta descobrir se a proposta virou contrato, o assunto desaparece atrás de portas fechadas.
·Em tempos de transparência digital e portais públicos, contratos custeados com dinheiro do contribuinte não deveriam exigir lanternas, lupa e mapa do tesouro para serem encontrados.
·Enquanto os detalhes permanecem guardados a sete chaves, a conta já é conhecida: R$ 2,8 milhões. O resto segue no escuro.
·Com base em dados do Censo de 2022, o IBGE mostra que os cinco Estados com mais católicos no Brasil são Piauí, Ceará, Paraíba, Sergipe e Rio Grande do Norte.
·O percentual de católicos no Piauí é de 70,40%, e na outra ponta, com menos é Roraima, com 37,89%. O Pará apresenta um percentual de 54,35% de católicos.
·De Brasília a Belém, decisões políticas, denúncias, infraestrutura e curiosidades movimentam a semana no Estado.
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
ALina Kelian
19 de Maio de 2018 ResponderLorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipisicing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore magna aliqua. Ut enim ad minim veniam, quis nostrud exercitation ullamco laboris nisi ut aliquip ex ea commodo consequat.
Rlex Kelian
19 de Maio de 2018 ResponderLorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipisicing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore magna aliqua. Ut enim ad minim veniam, quis nostrud exercitation ullamco laboris nisi ut aliquip commodo.
Roboto Alex
21 de Maio de 2018 ResponderLorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipisicing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore magna aliqua. Ut enim ad minim veniam, quis nostrud exercitation ullamco laboris nisi ut aliquip ex ea commodo consequat.