Aluno diz que financiamento foi repassado à universidade mesmo após instituição rejeitar sua matrícula e relata cobrança da Caixa e negativação.
Universidade da Amazônia (Unama), integrante do grupo Ser Educacional, anunciou nesta semana lucro líquido de R$ 106,3 milhões no segundo trimestre de 2026, resultado 30,7% superior ao registrado no mesmo período do ano passado. No mesmo balanço, o grupo informou receita líquida de R$ 622 milhões e 334 mil estudantes matriculados ao final de junho.

É nesse universo de números que surge um caso que pede explicações da instituição e da Caixa Econômica Federal: um professor afirma ter tido a matrícula rejeitada pela Unama, mas, ainda assim, descobriu que parcelas de um contrato do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) firmado em seu nome teriam sido repassadas à universidade.
O professor Pedro Hamilton Marinho Gomes conta que foi aprovado, em 2024 para o curso de Direito da Unama, com financiamento pelo Fies Social. Em 2025, quando apresentou a documentação solicitada para efetivar a matrícula, recebeu a informação de que o procedimento havia sido indeferido.
Segundo Pedro, a justificativa apresentada pela instituição foi a existência de duas parcelas em aberto referentes a um curso realizado por ele em 2001. O professor contesta a cobrança e lembra que se trata de uma dívida antiga, relacionada a um período anterior à atual configuração empresarial da Unama.
“Fui aprovado, consegui o financiamento e, quando fui efetivar a matrícula, ela foi indeferida por causa de uma suposta dívida antiga”, relata.
O problema, segundo ele, não terminou com a negativa da universidade. Posteriormente, Pedro passou a receber contatos da Caixa informando que havia valores em aberto referentes ao financiamento estudantil. Foi quando decidiu procurar a instituição financeira. De acordo com os documentos que apresentou à coluna, o professor constatou registros de repasses relacionados ao contrato do Fies em favor da Unama, apesar de a matrícula ter sido rejeitada pela universidade.
A situação criou um paradoxo: de um lado, o estudante afirma não ter sido matriculado nem ter frequentado uma única aula; de outro, documentos bancários apresentados por ele indicariam movimentações financeiras vinculadas ao financiamento contratado para custear justamente sua graduação.
O professor também contesta a cobrança decorrente do contrato e afirma que seu nome acabou incluído em cadastros de proteção ao crédito. Segundo ele, a Caixa informou que a situação decorreria dos valores relacionados ao financiamento que, conforme os documentos apresentados, continuaram sendo contabilizados.
A controvérsia ganhou outro capítulo quando, segundo Pedro, a Caixa retirou R$ 240 de sua conta no aplicativo Caixa Tem. Ele afirma que não autorizou o débito e questiona a justificativa apresentada para a operação. Ainda segundo o professor, após reclamar da retirada, recebeu a informação de que o valor seria devolvido em até cinco dias. Passados quase 15 dias, porém, ele afirma que o ressarcimento não havia ocorrido.
Pedro também procurou a Ouvidoria da Caixa. A resposta recebida, segundo ele, não esclareceu especificamente a razão da retirada do dinheiro nem resolveu a questão central relacionada ao financiamento e aos repasses para a universidade. O caso, portanto, envolve duas questões distintas que precisam ser esclarecidas: a situação acadêmica do aluno - cuja matrícula, segundo seu relato, foi rejeitada - e a movimentação financeira vinculada ao contrato do Fies firmado em seu nome.
Os dados financeiros divulgados pelo próprio Ser Educacional ajudam a dimensionar o tamanho da instituição envolvida no episódio. No segundo trimestre, o grupo registrou receita líquida de R$ 622 milhões, crescimento de 5,6% sobre o mesmo período de 2025, e lucro líquido de R$ 106,3 milhões, alta anual de 30,7%.
Ao final de junho, eram 334 mil estudantes matriculados, número 2,8% menor que o registrado um ano antes. Na graduação presencial, porém, a base chegou a 195,1 mil alunos, crescimento de 4,4% em 12 meses.
O balanço não informa quantos desses estudantes são financiados pelo Fies. Essa ausência impede, a partir dos dados públicos apresentados, dimensionar quanto o grupo recebe por meio do programa ou saber se existem outros casos semelhantes ao relatado pelo professor.
É importante ressaltar que o episódio envolvendo Pedro Gomes é, até aqui, uma denúncia individual e não permite concluir que tenha ocorrido irregularidade sistêmica. O que os documentos apresentados pelo professor indicam é uma aparente incompatibilidade entre a rejeição de sua matrícula e os registros de repasses vinculados ao financiamento.
A Coluna Olavo Dutra encaminhou à Assessoria de Imprensa da Unama pedido de esclarecimentos sobre o caso, acompanhado dos documentos apresentados pelo professor Pedro Gomes. Até o fechamento desta matéria, a instituição não havia respondido às perguntas encaminhadas pela coluna.
A Caixa Econômica Federal também é parte importante para esclarecer o episódio, especialmente quanto aos registros do financiamento, aos supostos repasses à instituição de ensino, à cobrança atribuída ao contrato, à negativação do nome do professor e ao débito de R$ 240 em sua conta. O espaço permanece aberto para manifestações da Unama, da Caixa e dos demais envolvidos.
No caso, mais do que discutir uma dívida antiga ou a burocracia de uma matrícula, há uma pergunta objetiva que precisa de resposta: se o aluno não foi matriculado e afirma não ter recebido uma única aula, por que existem registros de recursos do Fies vinculados à sua graduação?
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Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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