Polícia Federal expõe o método nacional e acende alerta na bancada do Pará Na pressão, governo quebra monopólio da travessia do Marajó, mas atropela rito Supremo determina afastamento de dois conselheiros nomeados sem concurso no TCM

Taxa de juros ou um fogão novo?

  • 4154 Visualizações
  • 09/07/23 21:57
Taxa de juros ou um fogão novo?

Taxa de juros ou um fogão novo?

 

Por Renato Condurú Jr.

 

Vi em canal de Tv a entrevista de um economista renomado em que fez uma análise da conjuntura econômica brasileira para, em seguida, defender a política do Banco Central de permanecer com a Selic em 13,75%.

 

Um dos pontos de defesa do economista é a taxa de desemprego do Brasil, em torno de 9%. Alega que essa taxa em relação à nossa economia é de pleno emprego e dificilmente será menor, pois não há ociosidade nos setores produtivos do País. Estamos com todas as vagas ocupadas.

 

Essa constatação sem dúvida explica os 9% de desemprego, porém, se não temos ociosidade e o desemprego é alto, significa que a população em idade ativa cresce muito acima do crescimento econômico. Ou seja, nossa estrutura produtiva é a mesma de bastante tempo atrás.

 

Costumo usar um exemplo bem simples para se entender essa questão de crescimento e desenvolvimento econômico. Imagine uma pequena empresa de produção de “quentinhas”. Ela dispõe de um fogão pequeno, de quatro bocas e com esse fogão consegue produzir no máximo 30 “quentinhas por almoço”. Com as vendas dessas “quentinhas” tem receita para contratar uma pessoa; para gerar mais emprego, precisaria faturar mais, para isso, produzir mais, e, para tanto, precisaria de um fogão maior.

 

Se comprar o fogão maior vai crescer em termos de produção e se desenvolver, gerando mais empregos, que, por sua vez, irão permitir aos empregados condições de agregar educação, qualificação, consumo, gerar impostos e fazer o País se desenvolver.

 

É justamente o que estamos vivendo: o fogão da economia brasileira hoje é o mesmo de  mais de dez atrás, portanto, não há crescimento, nem, desenvolvimento, e os 9% de desempregados, o que, convenhamos, é muito elevado, vira normalidade e pleno emprego, o que não deveria.

 

Para sair disso e promover o crescimento da economia é preciso investimento produtivo - aumentar o tamanho do fogão -, e, para que isso, os juros não podem estar elevados. Juros altos atraem investimentos especulativos, engordam o mercado financeiro e não o mercado produtivo.

 

Dito isto, o argumento do economista, de que nossa taxa de desemprego de 9% é normal, que o foco é a inflação, parece piada. Como se fosse fácil qualquer que seja o governante eleito aceitar que a prioridade é ter uma taxa de juros alta para debelar a inflação, e assistir 9 milhões de pessoas engrossando a parcela dos que estão abaixo da linha da pobreza e passando fome.

 

Nenhum país do mundo atingiu o desenvolvimento sustentável sem antes equacionar suas desigualdades sociais. A expansão da população carente amplia a demanda por serviços públicos, aumenta o custo da máquina pública, que requer mais impostos para bancar isso. Além disso, agrava a segurança pública e impõe à segurança privada elevados custos de proteção.

 

Com esse cenário é muito provável que os economistas defensores da política monetária do Banco Central façam análises pedindo medidas emergenciais de transferências de renda para mitigar a pobreza, como fizeram recentemente. O governo é obrigado a gastar mais, aumentar o endividamento e o desequilíbrio fiscal é um moto contínuo de problemas com um único culpado, a taxa de juros, que não nos permitiu comprar um fogão maior.

 

Seria interessante fazer um exercício econométrico para avaliar o que é menos desastroso para o País: taxa de juros ou um novo fogão.

Mais matérias Opnião

img
Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.