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CÍRIO DE NAZARÉ

Questão de limites: homenagens demais podem tirar espaço da própria festa?

Debate sobre som, arquibancadas, varandas e estruturas empresariais ganha as ruas; não há, porém, ameaça atual de perda do reconhecimento da Unesco

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  • Por Olavo Dutra | Exclusivo
  • 23/09/26 12:00
Questão de limites: homenagens demais podem tirar espaço da própria festa?
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Círio de Nossa Senhora de Nazaré vem se reinventando ao longo de seus 233 anos - desde a primeira procissão oficial, em 8 de setembro de 1793. Mudou muito, e algumas tradições desapareceram pelo caminho, deixando saudade entre os católicos. Mas há uma pergunta nova, que já circula pelas redes sociais e começa a ganhar corpo entre devotos: a Santa está sendo homenageada ou o Círio está virando cenário para homenagens? A discussão não é sobre proibir empresas de participar da maior manifestação religiosa do Pará. É sobre limite.

 

Redes sociais questionam: a Santa está sendo homenageada ou o Círio está virando cenário para homenagens?/Fotos: Arquivo.

Ao longo do percurso das procissões, multiplicaram-se estruturas, palcos, músicas e outras formas de homenagem promovidas por empresas. Para parte dos fiéis, a questão é saber até onde a homenagem pode avançar sem disputar espaço com aquilo que dá identidade ao Círio: a oração, os cânticos, o silêncio, a devoção e a experiência coletiva de acompanhar Nossa Senhora de Nazaré.

Até onde vai?

A discussão ganhou força nas redes sociais com a ideia de que “homenagear exige responsabilidade”. O argumento é que, quando intervenções externas começam a ocupar espaço excessivo durante uma manifestação religiosa, a questão deixa de ser apenas uma preferência musical ou estética.

O Círio é reconhecido pela Unesco, desde 2013, como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. A inscrição está na Lista Representativa e considera a celebração como uma manifestação religiosa e cultural transmitida entre gerações, com forte participação comunitária. A própria descrição da Unesco reconhece a convivência de dimensões religiosas, culturais, sociais e turísticas na festa.

Isso não significa que o Círio tenha de permanecer congelado no tempo. Patrimônio imaterial é, por definição, uma manifestação viva. A questão é outra: até onde a reinvenção pode ir sem comprometer aquilo que precisa ser preservado?

E as caixas?

Um dos pontos mais sensíveis está no sistema de sonorização usado para conduzir orações, cânticos e orientações ao longo do percurso. A crítica que circula atribui às estruturas particulares instaladas no trajeto parte do problema, com a alegação de que caixas de som e trechos da fiação teriam sido retirados ou danificados em pontos ocupados por empresas. A Diretoria da Festa de Nazaré apresenta outra explicação.

Segundo a diretoria, em 2025 ocorreram problemas pontuais de sonorização durante as procissões, prejudicando a transmissão de homenagens, orações, missas e louvores. A entidade atribui o problema principalmente à danificação e ao furto recorrente dos cabos que interligam as caixas instaladas ao longo do percurso, situação que, segundo a organização, se repete há alguns anos.

A diretoria afirma que está investindo na recuperação e no reforço desses pontos e que, em 2026, pretende implementar melhorias para restabelecer a qualidade da transmissão. É uma explicação objetiva - mas não elimina a percepção de parte dos fiéis de que o som religioso perdeu espaço na própria procissão.

Círio virou palco?

Outra reclamação diz respeito às estruturas criadas ao longo do percurso: arquibancadas, varandas e espaços destinados a homenagens.

Há quem veja aí uma transformação natural de uma festa que reúne milhões de pessoas. Há também quem enxergue uma progressiva privatização de espaços tradicionalmente utilizados pelos devotos.

Nas redes sociais, uma das críticas resume a sensação: locais que antes eram utilizados gratuitamente por famílias para acompanhar a passagem da Santa passaram a receber estruturas comerciais ou de acesso restrito.

Outra reclamação mira as chamadas “varandas”, que teriam se multiplicado ao longo dos anos, algumas delas, segundo comentários publicados nas redes, com participação de recursos públicos - afirmação que exigiria verificação específica antes de ser tratada como fato.

O debate, portanto, precisa sair do terreno das impressões e entrar no da transparência: quem autoriza, quem paga, quem ocupa e quais são as regras para as estruturas instaladas no percurso do Círio?

Unesco não ameaça

Aqui é preciso separar o debate legítimo do rumor. Não há, neste momento, indicação oficial de que o Círio esteja ameaçado de perder o reconhecimento da Unesco. A organização internacional mantém a celebração na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade desde 2013.

Também não procede tratar a revalidação realizada pelo Iphan em 2021 como uma espécie de “prova de sobrevivência” do título. O processo brasileiro de revalidação ocorre periodicamente, conforme o Decreto nº 3.551/2000, e o Círio teve seu título de Patrimônio Cultural do Brasil revalidado por unanimidade pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural em novembro daquele ano. O próprio Iphan esclarece que a revalidação serve para analisar transformações, continuidades e aspectos relevantes do bem, além das ações de salvaguarda.

Devotos têm voz

O fato de não existir ameaça de perda do título da Unesco não encerra a discussão. Talvez a torne mais importante. Patrimônio imaterial não é apenas uma placa na parede ou um certificado internacional. É uma manifestação que continua existindo porque uma comunidade a reconhece, pratica e transmite.

E é justamente por isso que a pergunta dos devotos merece ser ouvida: na hora da homenagem, quem está no centro - a Santa ou o homenageado? O Círio continuará mudando. A questão é saber o que pode mudar sem que o Círio deixe de ser o Círio.

Papo Reto

O Complexo Hospitalar Universitário da UFPA diz que a mobilização dos residentes não paralisa a Oftalmologia e anuncia providências. Tradução: equipamento parado desde março virou problema público antes de virar solução.

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Já não se trata de uma voz isolada: cerca de 3 mil entidades do setor produtivo, incluindo CNI, Fiesp e CNC, assinaram o “Manifesto à Nação Brasileira”, exigindo que o plenário do STF examine publicamente os fatos que alimentam a crise institucional, com urgência, transparência e sem corporativismo.

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O fato é que a Nação cobra respostas. E, a cada dia sem elas, o silêncio fica mais ensurdecedor.

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O porte seria restrito ao serviço e sujeito a critérios conforme a função. O texto já passou pela Comissão de Segurança Pública e agora aguarda relator na CCJ - portanto, ainda não é lei.

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O STJ suspendeu em todo o País os processos sobre locações de curta temporada por plataformas digitais. Vai decidir se o condomínio só pode proibi-las quando houver vedação expressa. Até lá, tudo fica congelado.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.