Reunião em Brasília, nesta segunda-feira, 23, encerrou a queda de braço
Santarém, PA - Os indígenas que se opõem ao plano de hidrovias em rios da amazônia receberam, nesta segunda-feira (23), o anúncio da revogação do decreto 12.600/2025 quando faziam um ritual sagrado, em frente à sede da Cargill em Santarém (PA). O grupo acampa no terminal portuário da empresa do agronegócio, em protesto, há mais de um mês, desde o dia 22 de janeiro.
Os manifestantes pediam o fim do projeto, assinado pelo presidente Lula (PT), que incluía hidrovias nos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização (PND). Ao longo do mês, o número de pessoas no ato aumentou e chegou a 1.200, segundo a organização.
A revogação gerou comoção entre os indígenas, que veem o decreto como uma privatização dos rios e temem os efeitos da dragagem dos cursos d'água para a passagem de grandes embarcações com produtos do agronegócio.
Eles percorreram a parte externa da Cargill em marcha, com cânticos e gritos. Muitos se emocionaram e se abraçaram entre si. A expectativa é finalizar o acampamento nos próximos dias, após a formalização da decisão no Diário Oficial da União.
Nesta segunda, uma reunião em Brasília com representantes dos povos da região do Baixo Tapajós, no oeste do Pará, e do governo federal resultou na revogação do decreto, a principal pauta do movimento.
O ministro da Secretaria-Geral, Guilherme Boulous (PSOL), confirmou a revogação em postagem nas redes sociais. "Anunciamos a decisão do governo Lula de revogar o decreto 12.600, após me reunir hoje com os povos indígenas do Tapajós, Tocantins e Madeira. Este governo tem capacidade de escuta do povo, inclusive para rever decisões quando necessário", escreveu.
Boulos afirmou que a decisão será publicada na próxima edição do Diário Oficial da União. Sonia Guajajara, ministra dos Povos Indígenas, classificou a decisão como "muito importante".
"Hoje [segunda-feira] tomamos aqui uma decisão muito importante nesse diálogo com o presidente Lula, que mesmo em viagem [à Ásia] escutou, dialogou com a gente para que a gente pudesse rever essa decisão", disse Guajajara.
"Os indígenas estão aqui [em Brasília] pela segunda vez em 33 dias de ocupação com mulheres, crianças, que seguem lá acampadas, com condições precárias, riscos, ameaças. Então foi muito importante a gente também considerar essa questão humanitária", completou.
O cacique Gilson Tupinambá, em Santarém, foi um dos que festejaram a decisão. "Nós lutamos contra a gigante Cargill, mas eles se enganaram, porque gigante somos nós. A nossa luta é ancestral. Essa terra aqui é sagrada. E hoje, com a nossa espiritualidade, nós conseguimos revogar o decreto de morte", disse à Folha.
A Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira) afirmou, em nota, que "acompanha com atenção" o anúncio do revogação do decreto, "ainda sem data definida para sua publicação no Diário Oficial da União".
Desde a semana passada, os manifestantes enfrentavam a pressão de uma ordem judicial que determinava a desocupação do terminal portuário, concedida a pedido da empresa do ramo do agronegócio. Em resposta, eles adentraram a parte interna da Cargill, pela primeira vez, no sábado (21), o que elevou a tensão do ato.
Na última sexta-feira (20), também houve protesto de indígenas e representantes de movimentos sociais em frente ao escritório da Cargill em São Paulo.
A Cargill, em nota, classificou o ato em São Paulo e a entrada na sede em Santarém como "duas ações violentas". Os atos, segundo o comunicado, resultaram em vandalismo em ambos ativos da empresa.
Foto: Reuters
(Com a Folha)
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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