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Meio Ambiente

Coluna Ver Amazônia: Mudanças climáticas afetam povos de toda a Amazônia

Enquanto isso, nas plenárias bem longe da realidade, autoridades discutem o que fazer para adaptação da vida neste novo normal do clima.

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  • Mariluz Coelho/João Ramid | Especial para o POD
  • 20/11/24 15:55
Coluna Ver Amazônia: Mudanças climáticas afetam povos de toda a Amazônia

Os sinais não são mais sinais. O clima alterado no planeta tem consequências reais hoje. Olhe para o lado e perceba, algo está fora do lugar. A ciência já constatou, as autoridades reconhecem. Mas, e daí? Na prática, o que está sendo feito para a adaptação ao “novo normal” do clima?


O Atlântico segue invadindo as águas doces da Amazônia


Não é um caso isolado. Somados aos eventos que sempre ocorreram pelo mundo em áreas de riscos, como furacões, tsunamis e terremotos, novas ameaças e desastres provocados pelo clima alterado surgem de forma extrema em vários locais do planeta, inclusive na Amazônia.


A coluna desta semana é resultado de uma expedição pela Amazônia, realizada em outubro, entre o Marajó e o Rio Xingu. No mesmo período, a Coluna Ver Amazônia acompanhou eventos de relevância global, como a reunião do G20 em Belém, que reuniu líderes das 19 maiores economias do mundo e a União Europeia, além dos debates climáticos na COP16 e, mais recentemente, na COP29, no Azerbaijão


Comunidades do Marajó lutam contra a força das águas


O mar avança e moradores enfrentam a fúria das marés grandes

O planeta é único, mas as consequências da crise climática não são igualmente distribuídas. Os mais pobres, expostos a riscos extremos, são os mais prejudicados. Nossa expedição começou no Marajó, na Praia do Pesqueiro, onde a comunidade enfrenta sozinha a fúria das marés inesperadas.


“Sempre as marés mais altas ocorreram em março, no inverno. Do ano de 2022 para cá, a gente vem notando que elas passaram a crescer em meses que a gente não esperava, como setembro, em pleno verão”, conta Dinilcia Pacheco Nunes, que tem um restaurante na praia.




A maré fora de época destrói barracas e sombreiros e ameaça a vida na comunidade

Passamos momentos durante o dia e à noite na comunidade acompanhando essas mudanças. O Pesqueiro está localizado no ponto de encontro entre o Rio Amazonas, a Baía do Marajó e o Oceano Atlântico. A água é normalmente salobra.

 

Existe um movimento natural na dança das águas. As marés acontecem no balanço do rio empurrando o mar e vice-versa. As comunidades sempre conviveram naturalmente com os fenômenos.


“Nós sabíamos quando vinha a maré grande e nos preparávamos com base nos nossos conhecimentos ancestrais. Antes, ela crescia, mas não derrubava o morro próximo aos restaurantes. Agora já perdemos 30 metros de areia, perdemos barracas e sombreiros. O Atlântico avança cada vez mais. Temos medo”, relata Dinílcia Nunes.


A contenção feita de paus e palhas não segura mais o avanço das águas

Presenciamos as marés na Praia do Pesqueiro nos dias 17 e 18 de outubro. A comunidade se une e age sozinha, normalmente sem a ajuda de forças de defesa. Os trabalhadores reforçaram a barreira de contenção.


Eles utilizaram sacos cheios de pedra, madeira e paus para esperar a vinda das águas grandes. Atualmente, os restaurantes estão protegidos apenas por um barranco de areia com cerca de 8 metros.


A Maré destrói barracas e está perto dos restaurantes

No final da tarde, era possível notar a mudança na cor da água, que normalmente é marrom (do rio e da baía) para esverdeada (do mar). Isso significa a presença das águas do mar invadindo a área continental, derrubando sombreiros e atingindo as barracas.


Homens lutam para conter a fúria da maré


Homens da comunidade entraram na água para conter a maré. Sozinhos, eles se arriscam para tentar evitar que o mar leve as barracas. É uma luta contra a força da natureza, impulsionada pelas mudanças climáticas.


Seca extrema


Onde era rio agora é um deserto de pedras no coração da Amazônia


Saímos do Marajó rumo à região do Rio Xingu, onde a seca extrema tem castigado os povos indígenas. Acompanhados pelo cacique Kwai Assurini, enfrentamos uma viagem que levou o dobro do tempo habitual devido ao baixo nível do rio.


Viagem sob calor escaldante e com o dobro do tempo para evitar acidentes nas pedras do rio


Menos de um metro de profundidade em alguns trechos

"Nunca tinha visto o rio tão seco", desabafou o cacique, enquanto desviava das pedras que agora surgem nos estreitos do leito quase seco. Em alguns trechos, o Xingu ficou com menos de um metro de profundidade.


Grandes paredões de pedra se formam com o rio seco
 

Rotina alterada no Xingu


Cacique Kwai Assurini, no comando da aldeia atingida pela crise climática.

O cacique Kwai Assurini relatou como os impactos climáticos têm transformado a vida dos povos indígenas. Conhecedores da natureza, eles sempre usaram saberes ancestrais para manter uma relação equilibrada com o meio ambiente. Mas a seca extrema está alterando essa dinâmica.


"Algo está fora do lugar", desabafou o cacique Kwai. Ele explicou que, com a falta de água, os peixes migram para locais mais profundos, tornando a pesca um desafio diário. A caça, essencial para a alimentação, também foi afetada, já que os animais estão se deslocando para regiões distantes em busca de água, dificultando o acesso à carne para as comunidades.


A imagem aérea revela a aldeia quase isolada devido à seca extrema do Rio Xingu



Na aldeia, foram construídas casas de alvenaria pela Norte Energia, empresa que gerencia a Usina Hidrelétrica Belo Monte, como compensação pela construção do projeto, que deslocou os indígenas de suas terras originais.


Casas de alvenaria construídas pela Norte Energia agravam o calor na aldeia


O calor dentro das casas é insuportável, dificultando o sono e contribuindo para o surgimento de doenças. As condições no local expõem os impactos das mudanças climáticas e das decisões tomadas sem a devida consulta ou planejamento voltados para o bem-estar das comunidades indígenas.


Sobram compromissos, faltam ações


Os debates e compromissos, embora válidos e necessários, acontecem em plenárias distantes da realidade local. A representação comunitária é mínima, insuficiente para abarcar a complexidade dos envolvidos e das necessidades dos territórios.


Num claro descompasso, enquanto autoridades globais e locais discutem soluções, os impactos da crise climática continuam a provocar mortes e destruição. As populações mais vulneráveis são as mais atingidas, porém os efeitos também chegam aos países ricos. “Nenhum país está a salvo da devastação causada pelas mudanças climáticas”, alertou António Guterres, secretário-geral da ONU.



Farol Ver Amazônia


Ricos 1

Organizações da rede do Observatório do Clima fizeram um protesto para pressionar o G20 - que reúne as maiores economias do mundo - a adotar a taxação dos super-ricos como forma de financiar ações robustas contra a crise climática.


Ricos 2

Os países do G20 são responsáveis por cerca de 80% das emissões de gases de efeito estufa e concentram 80% da riqueza mundial. Segundo as organizações, nenhum país pode justificar a falta de recursos para o enfrentamento climático sem implementar uma taxação justa sobre seus bilionários.


Diplomacia 1

Na Cúpula do G20, no Rio de Janeiro, Lula e Guterres discutiram clima, mas concretizações ainda são incertas. Ambos reiteraram a urgência de implementar medidas determinantes para enfrentar a mudança climática. Eles destacaram a necessidade de maior ambição dos Estados-membros da ONU para garantir o sucesso das próximas conferências climáticas, a COP29 e a COP30.


Diplomacia 2

Apesar da ênfase em discursos sobre ambição climática, não foram detalhadas ações concretas ou compromissos específicos assumidos durante a reunião. Guterres segue de volta à Cúpula do Clima, em Baku, no Azerbaijão, após participar da Cúpula do G20, enquanto os desafios climáticos urgem por respostas mais diretas e efetivas.



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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.