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Bragança, padre e prefeito; reza e voto misturados, dia que se perde em expiação

Prefeito e Igreja cruzam fronteiras da fé e da política; show de R$ 320 mil com padre Fábio de Melo acende revolta e revela a crise moral.

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  • Da Redação | Olavo Dutra
  • 10/11/25 08:00

Dom Possidônio foi nomeado pelo Papa Francisco em meio a denúncias de má gestão e irregularidades no patrimônio diocesano/Fotos: Divulgação-Redes Sociais.


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a histórica cidade de Bragança, nordeste do Pará, a impressão é uma só - e não se fala em outra coisa. Onze meses depois da posse do prefeito Mário Júnior, do MDB, médico e ex-diretor do Hospital Diocesano Santo Antônio Maria Zaccaria, a cidade parece viver um transe coletivo – às vezes festivo, outras vezes, fúnebre. 

Acidentes de trânsito em série, mortes violentas, denúncias de fome nas escolas por falta de merenda e um clima geral de desalento e revolta contida dominam ruas e bares.

A batina e a caneta

Bragança sempre foi uma cidade de fé - profundamente católica, marcada pela influência dos jesuítas e por uma diocese poderosa, dona de imóveis, rádio e hospital. Mas, nos últimos anos, o rebanho diminui. As igrejas evangélicas avançam, e os próprios católicos explicam a mudança: a instabilidade da diocese e o envolvimento excessivo da Igreja com a política local.

O prefeito Mário Júnior é um símbolo desse embaralhamento. Deixou a direção do hospital diocesano para entrar na política e acabou sendo o sucessor de Raimundo Oliveira, o “Raimundão”, com quem o clero não comunga -literalmente. O atual gestor, portanto, segue dois senhores: a batina e o voto.

Transe litúrgico

A relação entre a Igreja e a prefeitura ganhou tons de escândalo. Há mais ou menos um mês - talvez mais -, durante uma homilia, o bispo Dom Raimundo Possidônio da Mata, nomeado há três anos pelo Papa Francisco em meio a denúncias de má gestão e irregularidades no patrimônio diocesano, mencionou a violência crescente em Bragança, na presença do prefeito.

Não foi exatamente uma cobrança, mas soou como recado. O prefeito respondeu com gesto simbólico: bateu em retirada com a imagem da santa padroeira da igreja, sem a bênção do bispo.

Agora, a mistura de fé e poder voltou aos holofotes com a contratação do padre Fábio de Melo, que recebeu R$ 320 mil para cantar no Círio 2025 de Bragança ontem, domingo, 9. Metade do valor, segundo contratos obtidos por vereadores, já foi paga antes da chegada do artista à cidade; o restante, quitado antes de o padre subir ao palco. Nessa fronteira de pão e circo o show diluiu bons e maus sentimentos - e o espaço acabou lotado, segundo as imagens em uma rede social do prefeito.

Fogo no parquinho

Mas a decisão incendiou as redes. O comunicador Ronny Madison II publicou que o “prefeito das festas” deixou crianças com fome nas escolas enquanto bancava “show de luxo”. “É o retrato de um povo que não sabe votar, que se vende por migalhas e ainda critica quem mostra a verdade”, escreveu.

O post viralizou. Em paralelo, pais de alunos denunciaram a falta de merenda na Escola Júlio Ernesto, na comunidade do Campinho. Um vídeo recente mostra alunos em sala de aula sem carteiras, tentando assistir à aula em pé. Enquanto isso, o prefeito investe na vitrine da fé - e na própria imagem.

Altares e arranjos

No epicentro do desconforto, o padre Raimundo Elias, Cura da Sé, aparece em vídeo descontraído com o prefeito - cena impensável para muitos bragantinos criados sob o rigor jesuíta. É o mesmo padre que levou Dom Possidônio à Câmara de Vereadores para tentar resolver a pendência de um imóvel da Igreja no centro da cidade - sem sucesso. O episódio reforçou a ideia de alinhamento político do clero em um momento em que o Vaticano monitora discretamente a situação.

Outro vídeo, este do prefeito, vem com trilha sentimental: “Raindrops Keep Falling on My Head”, de Burt Bacharach e Hal David, sucesso de 1969. A letra fala de sorrir sob a chuva, de não se deixar abater. Em Bragança, a ironia escorre com cada gota - a melodia doce cobre o desalento, e o otimismo vira penitência coletiva.

Há quem diga que Roma não dorme: nomes próximos à Nunciatura em Brasília não descartam a designação de um bispo coadjutor para dividir - ou assumir - o comando da diocese bragantina.

Pelo visto nas redes sociais, em Bragança, a fé virou espetáculo e a política, penitência. Entre rezas e selfies, o prefeito celebra o Círio, o padre anima o palco, e o povo - sem merenda, sem carteira e sem voz - assiste à cena como se fosse procissão. O milagre é sobreviver; o resto é promessa de campanha.

Papo Reto

O primeiro contêiner de tilápia importada do Vietnã já está chegando no Brasil e sabe quem está por trás dela? A JBS. Isso explicaria o motivo de o governo Lula (foto) vir lutando dia e noite para proibir a produção nacional.

•As famílias brasileiras deverão gastar R$ 266,9 bilhões no setor de Educação, até o final deste ano. Os números, apresentados pela Pesquisa IPC Maps, representam um crescimento de 12% em relação a 2024, quando as despesas foram de R$ 238,2 bilhões.

Destrinchando os números, cerca de R$ 55 bilhões referem-se a despesas com livros, revistas técnicas, materiais didáticos, cadernos e artigos de papelaria. Outros R$ 211,4 bilhões abrangem os gastos com matrículas e mensalidades.

•Por unanimidade, o Tribunal Superior do Trabalho reafirmou que o monitoramento da conta corrente de bancários pelo banco empregador não configura violação do direito à privacidade, nem quebra de sigilo bancário.

Trata-se, segundo o TST, de dever legal inerente às funções institucionais. A ação foi apresentada por uma funcionária do Bradesco, que acusou o banco onde ela trabalhava, na Bahia, de violação de direitos e quebra de sigilo bancário.

•De acordo com a bancária, o banco verificava, diariamente, se o limite do cheque especial era utilizado e monitorava os valores dos cheques emitidos, os depósitos recebidos, a origem de cada um deles e os gastos efetuados com o cartão de crédito.

A justificativa era de que as normas internas exigiam que os empregados centralizassem toda a sua movimentação em apenas uma conta na agência em que trabalhassem.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.